domingo, 27 de novembro de 2011


A dança das bailarinas cegas


Quando começou a ensinar balé clássico a 
adolescentes
 cegas, a professora de dança Fernanda 
Bianchini ouviu
 de muitos colegas que seria impossível
 transformar as
 moças em bailarinas, pois era preciso
 que o aluno 
enxergasse os movimentos para
 poder imitá-los.
 O início foi de fato desanimador.
 Tentava ensinar
 posições e passos ajustando braços e pernas das
 meninas – as sequências eram reproduzidas, mas
 logo se afrouxavam. A turma começou a progredir
 quando as próprias alunas sugeriram um método 
de aprendizado que se revelou muito mais eficiente:
 pediram para tocar o corpo de Fernanda enquanto ela
 fazia cada movimento. Se não tinham o sentido da visão
, as garotas podiam contar com o tato. Imitavam, a partir
 das impressões captadas pelos dedos, a disposição dos
 músculos da professora ao realizar abertura de pernas,
 ao executar dobraduras ou ao ficar na ponta dos pés.
 Era 1995, e ela tinha apenas 16 anos.


Nos últimos 16 anos, mais de 300 crianças e adolescentes com deficiência visual 
passaram pela Associação de Balé e Artes, no bairro Vila Mariana, em São Paulo, onde
 Fernanda, hoje com 32 anos, leciona. O Balé de Cegos, como é conhecida a 
companhia, já inspirou escolas de dança no país e no exterior. Formada em
 fisioterapia e em dança, a bailarina abusou da criatividade. Para tornar os
 movimentos das meninas mais fluidos, por exemplo, amarrou folhas de 
palmeira nos braços delas e orientou-as a não deixar as 
asas imaginárias desgrudar de seus membros. Aos poucos, evoluíram dos
 posicionamentos estáticos para
 rodopios e piruetas.


A companhia mantém-se com doações e com o investimento de
 patrocinadores. As bailarinas já fizeram
 apresentações em várias regiões do país, pelas quais receberam 
cachê. “O balé não aprimora 
somente a postura, o equilíbrio, a noção espacial e corporal –
 o principal trabalho é sobre a
 autoestima do deficiente visual”, observa Fernanda.